sozinho numa mesa cheia.

Por Portal Opinião Pública 13/08/2026 - 16:45 hs
Foto: Divulgação

entre tanta gente

sozinho numa mesa cheia.

há momentos em que o que mais pesa não é a falta de companhia, mas a sensação de que ninguém consegue alcançar aquilo que acontece dentro da gente.

por enrico pierro

domingo passado, a mesa da chácara estava do jeito que eu gosto: cheia. comida boa, conversa alta, gente querida, cachorro circulando por baixo da mesa em sua ronda oficial de migalhas. eu estava no meu lugar de sempre, rindo, servindo mais arroz, participando de tudo. e, no meio de uma risada, me atravessou uma sensação que demorei anos para nomear: eu estava me sentindo sozinho. ali. na mesa mais cheia da semana.

não era tristeza com as pessoas presentes. era como se existisse um vidro invisível entre mim e a mesa. eu via e ouvia tudo, mas por dentro estava em outro cômodo, com pensamentos que não cabiam em nenhuma conversa. já aconteceu com você?

durante muito tempo, achei que fosse um defeito meu. depois descobri que é uma das experiências mais comuns e menos confessadas que existem: solidão acompanhada. a gente se cala, sorri, passa a travessa e deixa a solidão crescendo no cômodo de dentro.

aprendi que estar acompanhado e se sentir compreendido são coisas diferentes. a companhia resolve o silêncio da casa. a compreensão resolve o silêncio de dentro. e ela exige coragem para dizer o que realmente acontece.

naquele domingo, depois que todos foram embora, contei ao John o que havia sentido. ele não tentou consertar nada. apenas ouviu. e o vidro invisível rachou um pouco.

descobri que a saída da solidão acompanhada não é lotar mais a mesa. é arriscar uma conversa de verdade com uma pessoa só. o resto da multidão pode continuar passando a travessa.

@enricopierroofc